a vida não é só isto!

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Contos

pequenas histórias e inicios de textos mais longos do que um post normal de um blog

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Sábado, Janeiro 3 2009

o principio de uma vida nova

Lentamente levantei o tabuleiro e arrumei o livro, já não me apetecia ler.

A viagem ainda iria durar mais umas cinco horas e o melhor seria mesmo dormir. Enquanto tentava ignorar o ruido ambiente dos motores a jacto e o burburinho das pessoas, fechei os olhos. Terei feito a escolha certa? Deixar para trás tudo o que construi durante metade da minha vida, tudo em troca de um futuro e carreira incertas.

Mountain View, California, que nome mais estranho para o meu destino. A proposta foi mais forte, larguei mesmo tudo pela carreira, familia e amigos incluidos. Só de pensar nas infinitas possibilidades que estavam agora ao meu alcance valeu tudo.

Poucas horas tinham passado e já sentia saudade do meu pais. Os sentimentos são uma coisa tramada, quanto mais dizemos que não os temos, mais os sentimos. Anima-te rapaz, pensei eu... E com este pensamento tentei dormir.

Muito ao longe ouvi algo que pareceu ser o aviso da aproximação do destino. Esforcei-me por acordar, já que tinha sido esta a primeira vez que tinha conseguido dormir num voo transatlantico.

Arrumei as coisas na mochila e preparei-me para a chegada. Planeei mentalmente os passos seguintes, recolher a parca bagagem, levantar a "banheira" no rent-a-car e iniciar o caminho rumo ao novo local de trabalho.

Era domingo, mas segundo sei, esta lá sempre alguem para receber os novos 'inquilinos'. Enquanto esperava pela bagagem, mudei de ideias, decidi ir ver primeiro ver o mar, já que nunca vi o Pacifico. Deve ser diferente do atlantico, este deve ter a agua mais molhada...

Esta gente é mesmo estranha, uns doidos pela comida, outros pela forma, mas no geral estranhos mesmo. Provavelmente dirão o mesmo da terra de onde venho.

Sempre é verdade a tal historia da cultura sobre rodas. Estou agora a pé junto ao mar e a grande maioria dos carros tem lixo nos bancos de trás.

E o mar afinal é parecido, azul esverdeado, tal como o nosso, a praia é limpa e asseada, tal como a nossa seria se fosse limpa todos os dias. E o ar, muito identico tambem acima de tudo fresco e agradável. Voltei á estrada.

Segui as instruções que o gps me ia dando e no meio da confusao geral, lá fui andando. Cheguei ao complexo e afinal isto é mesmo grande. Abri a porta do apartamento, 'think big' pensei eu, mas nada me preparou para isto, tanto espaco só para mim!

E a vista que eu tinha! Só por isto a viagem já valeu a pena. Atirei a tralha para um canto e liguei o televisor. Publicidade, toneladas dela, em quase todos os canais e logicamente, desliguei o aparelho... Agarrei no mp3 e ouvi qualquer coisa, sempre e melhor que anúncios. Amanhã o dia vai ser longo, o descanso vai ter prioridade. Fico a saber qual o tamanho de um cubiculo e fico contente por saber que os nativos são enormes, mais espaco fica para mim.

Primeira reunião de grupo, sou apresentado ao resto da equipa. Depois de uma discussão sobre os projectos em curso e da respectiva distribuição de tarefas, voltamos para o open-space.

Pareceu-me que a equipa me aceitou bem e alguns até mostram algum interesse em ajudar na integração. O passeio até ao apartamento faz-se a pé e num instante, isto de viver e trabalhar no mesmo local é bastante agradavel. A semana passou num instante e no sábado fui a uma aula de bodyboard, que um colega ia dar.

Afinal a água e mesmo molhada, tal como no atlântico. E estranho ouvir tanta indicação em inglês e passado um pouco já fazemos confusão com o esquerdo e o direito. Mas a aula correu bem.

Fomos almoçar a um restaurante mexicano, que é da praxe para os novos colegas. Comecaram logo com a historia do picante mas saiu-lhes o tiro pela culatra, pois assim que provei pedi mais picante.

Como é logico, um dos engracadinhos pensou que eu estava no gozo e provou do meu prato. É giro ver um nativo a mudar de cor...

Dispensei a noitada que me foi proposta e fui descansar. A televisão aqui e mesmo um horror, intervalos a cada dez minutos, cinco para programas com mais audiencia.

Novo projecto, detesto java, mas só se pode usar isto... No geral é sempre bom avancar para projectos novos, desde que haja incentivos decentes, o que não acontecia no passado.

É este o lado positivo das grandes empresas, há sempre lugar para a inovação. Raramente há estagnação, mesmo nas empresas mais antigas. Essas há muito que aprenderam que o estagnar é a morte anunciada.

Mesmo que não haja lucro à vista, o que importa é investir na inovação.

...

Os primeiros três meses passaram num apice e subitamente tive um ataque forte de saudade. ? É o que acontece quando damos um passo maior do que a nossa perna.

Claro que a vida não é só isto, embora seja uma das partes mais importantes. Liguei à família, que mais podia fazer? Como tanta coisa mudou em tão pouco tempo!

E fica curioso o facto de quão pouco do que pensavamos que nos iria afectar se torna em bastante num instante. Mas rapidamente voltei ao ritmo de trabalho.

Apenas para receber um duro golpe, a minha participação no projecto tinha chegado ao fim. As altas patentes assim o decidiram. Aparentemente, todo o projecto estava a passar um fase negra, eu já sabia que outras áreas tinham também tido alguns sub-projectos cancelados, mas à boa maneira Portuguesa, sempre pensei que 'isso só acontece aos outros'...

Triste e desiludido, voltei ao apartamento. O sono tardava em chegar, a dor, o sacrifício, o desespero e tantas outras coisas impediam-me de conseguir desligar.



Mas por fim o sono chegou, adormeço com a incerteza, o que será que o dia seguinte me reserva? (C) 2009 Luis Correia

Domingo, Março 16 2008

a incerteza

acordei de repente, cheio de frio. não me lembrava de nada, nem mesmo o meu nome. estava deitado na terra húmida, algures num campo deserto.

era noite cerrada, o vento soprava forte, como se chamasse a chuva. esta chegou, fraca no inicio, mas ficando cada vez mais forte. de repente, o instinto pela sobrevivencia foi mais forte.

aos tropeções comecei a andar, depois a correr, sem rumo, sem direcção, apenas com o proposito de me abrigar. comecou a trovejar, bem forte. a recordacao dos ensinamentos da infancia lembraram-me de fazer as contas entre o relampago e o trovão.

era claro, a tempestade aproximava-se rapidamente. a chuva fria clareou o raciocinio, comecei a correr para a uma estrutura que via ao longe, mesmo no limiar do que era possível ver através da chuva, que ficava cada vez mais forte. a estrutura estava cada vez mais proxima, já tinha forma, um palheiro sem portas.

melhor que nada, pensei eu. exausto, atirei-me para cima da palha. má ideia, estava ensopada da chuva.

levantei-me a custo como se pesasse uma tonelada. retirei a palha molhada para o lado, ate que finalmente consegui sentir-me seco. adormeci. ... um cao ladrava, alguem gritava, sons de badalos, foi assim que fui arrancado de um sono profundo. tudo me doía, espirrei. alguem ouviu o meu espirro e aproximou-se.

ouvi um som metalico característico, uma arma a ser armada. senti um enorme calafrio, seria eu um fugitivo, ou estava apenas a invadir propriedade privada? tal como um suspeito faz, ergui-me com as maos à vista.

o homem apareceu com uma caçadeira apontada, disse algo que eu não percebi de imediato, falava talvez num dialecto estranho, interior, rural. perguntava talvez o que eu fazia ali. tentei falar, mas nem a minha propria voz eu reconhecia.

balbuciei devagar que não sabia como tinha ido até ali. o homem não quis saber pormenores, obrigou-me a entrar na caixa do tractor, para onde também seguiu o cão. ali fiquei por tempo indeterminado, assustado com o rosnar continuo do cão de guarda, que mesmo sedo pequeno metia respeito.

aproveitei aquele lugar seco e abrigado e contra todas as espectativas, voltei a adormecer. nem me apercebi que o tractor tinha iniciado a marcha e que me estava a levar para longe do campo. fui acordado com uma pancada rude nas pernas, dada pelo rijo cajado do aparente pastor/agricultor.

a custo saí da caixa, olhei em redor, estava numa quinta, de aspecto rudimentar. alguns trabalhadores olharam para mim com desprezo, outros simplesmente riam-se. que mal teria eu feito? nem sequer me lembrava do meu nome, do que fazia na vida, como ali tinha chegado, quem eram eles para me julgar?

...

deram-me de comer, uma papa fria e sem sabor. continuava a ouvir risos e gargalhadas ao longe, continuava sem saber porquê. a incerteza começava a instalar-se.

seria eu um fugitivo? estaria com amnésia? bolas!

subitamente tudo se tornou num grande turbilhão, como se o mundo estivesse a ir pelo cano abaixo, perdi a consciencia... acordei num chão frio de madeira, tinha o braço encharcado, no chão ao meu lado estava uma garrafa de plástico deitada, meia de água. tudo me doía... foi um pesadelo, caí da cama... (C) 2008 Luis Correia

Quinta, Novembro 1 2007

o farol

o gato dormitava no parapeito da janela, indiferente ao passar do tempo, suavemente adormecido pelo calor do sol que, perguiçosamente, se deita ao longe.

o homem suspira ao acabar de ler mais um livro e, vagarosamente, desce a longa escada em espiral até à biblioteca. faz este percurso várias vezes ao dia, entre a troca constante de temas de leitura e a vigia lá no topo.

porém, nem sempre assim foi, os dias eram ocupados com decisões que influenciariam a vida de milhares de pessoas, e as noites... bom, essas tinham mais vida própria do que alguém poderia um dia imaginar.

a vida passou-lhe num instante e um dia, ao ver um por do sol, ele tomou a sua decisão, largar tudo e começar a viver de facto a sua vida. passou a ter tempo para decidir o que fazer e como o fazer sem ter que satisfazer algum idiota qualquer.

o mar foi a grande inspiração, o espaço aberto o chamariz para o descanso e o farol a garantia do isolamento. as gaivotas passaram a ser a sua companhia preferida, juntamente com o lucas, o gato pachorrento que dormia o dia todo, apenas mudando de poiso ao sabor do sol.

o frenesim do lufa-lufa de antigamente desapareceu passado dois meses após ter chegado ao farol. e o estranho é que só notou que na verdade não sentia falta da 'pressa de viver do antigamente'.

os dias agora passam sem pressa, o jardim cresce pachorrentamente e uma vez por semana o correio passa perto e deixa alguns vestigios da existencia de outras vidas numa caixa perto dali.

não tem computador, nao tem internet nem telefone móvel. na verdade nada disso lhe faz falta, apenas o mar o alimenta de tudo o que precisa. comunicar com outros membros da sua espécie já não faz grande sentido.

a vila mais proxima fica a uma exasperante hora de distancia, mesmo no seu decrépito carro e ele evita-a, as pessoas fazem demasiadas perguntas, querem saber da vida de todos, como se a deles não lhes chegasse.

ele nunca entendeu a sede insaciável que algumas pessoas teem pela vida do alheio, será a falta de algo importante ou relevante ou mesmo uma cuscuvelhice crónica que os impele para a descoberta de algo de novo, algo que as faça ter protagonismo por saber algo do desconhecimento dos outros?

com a dificuldade em entender tudo isto, ele agradeçe ter poucos os motivos para lá ir, nao fosse a necessidade de comprar algo que não cresce no quintal...

o 'trabalho' que tem que fazer é simples, manter a lampada ligada de noite. o seu uso para a navegação é pouco, já que ao redor não há baixios perigosos nem penhascos que possam apanhar marinheiros de surpresa. mas num pais de grandes navegantes, um farol a brilhar no escuro faz sempre bem à alma, mesmo com os auxiliares da navegação a tornarem tudo mais seguro.

o isolamento trouxe-lhe aquilo que nunca teve, paz de espirito. e serviu para provar a teoria de que algumas pessoas nasceram para serem solitarias.

(assim como eu, pensou o Lucas). (C) 2007 Luis Correia